quarta-feira, 6 de abril de 2016

LARGADO NA SARJETA


LARGADO NA SARJETA
Por João Octávio Barbosa

É ano de Olimpíadas. E, não sei se você sabe, desta vez é no Brasil, a primeira edição na América do Sul (toma, Argentina!). Coincidentemente, hoje é aniversário da ressurreição das Olimpíadas. Em 1896, também num 6 de abril, o Barão de Coubertin (1863-1937) deu vida nova à competição internacional mais famosa do mundo. Ela surgiu nos tempos da Grécia Antiga, e ficou sem ser disputada por cerca de 1.400 anos!

Posteriormente aos Jogos Olímpicos oficiais de 2016, teremos os jogos Paraolímpicos, que surgiram logo após a Segunda Guerra Mundial. Seu idealizador, Sir Ludwig Guttmann, objetivou criar mais dignidade e propósito para aqueles que voltaram feridos da guerra. Pessoas com deficiências físicas têm grandes desafios, mas dali em diante poderiam ser campeãs olímpicas. 



Na época bíblica, os portadores de necessidades especiais não tinham tantas oportunidades. A maioria deles vivia mendigando. Quero apresentar você um rapaz de nome difícil, e vida mais ainda - pelo menos até o dia em que foi achado. Vamos falar de Mefibosete. Você pode contextualizar essa história lendo II Samuel 4:4; 9:1-13; 16:1-4; 19:24-30, numa Bíblia em sua casa ou na internet. Parece muita coisa, mas é rapidinho.

Mefibosete nasceu para ser rei, uma vez que era filho mais velho do herdeiro do trono do Rei Saul. Mas com cinco anos de idade sua vida foi destruída. Morreram seu avô e seu pai, e, atropelado, ele perdeu o movimento das pernas. Agora ele era deficiente, miserável e esquecido. Sua vida era uma ameaça, pois novos reis costumavam matar toda a família do antigo rei. Mefibosete tinha mais problemas do que inimigo da Globo, mas ia levando, quietinho - afinal, não tinha como piorar.

Porém, tinha. Já adulto, Mefibosete é achado em sua reclusão. Levam-no até o rei. Pelo jeito, era o dia da vingança de Davi, o fim para Mefibosete. Bom, até que não parecia tão ruim. Nunca teve vida. Nunca foi um ser humano. Era um “cão morto” rastejando na sarjeta (II Samuel 9:8).   

Então, de repente, a vida sorri para ele. Acontece que Davi amava o pai de Mefibosete, Jonatas. Mefi (apelido carinhoso que acabo de inventar) era o único traço vivo da amizade que eles tinham. Davi acolhe Mefi e o torna príncipe de novo! Como ele era até os seus cinco anos! Mefi ganha até uma família de empregados para lhe ajudar. De dar inveja à elite paulistana verde-amarela.

Agora precisamos falar de um homem chamado Ziba. Foi ele quem avisou ao rei onde estava Mefi. Vamos lembrar que, na época, todos pensavam que Davi procuraria Mefi para matá-lo! Ziba sabia que essa era a tendência e não titubeou ao entregar Mefi. Ziba era um homem bem-sucedido. Tinha 15 filhos (mesmo sem Bolsa Família, isso era um tremendo status à época) e era empresário, tendo 20 empregados de uniforme branco. Só que depois das bênçãos que Davi concedeu a Mefi, todas essas 36 pessoas se tornaram servas dele! Pura humilhação e rebaixamento, eles pensaram. Impeachment no Davi, já!


Bom, mais uma trama: nos capítulos 14 e 15 de II Samuel, há uma crise política e Davi tem que ser refugiar. Teve golpe! Porém, quando é Davi quem precisa de ajuda, Mefi some. Ziba surge todo pimpão, com jumentos e jumentos de apoio a Davi. Então, Ziba avisa a Davi que Mefi ficou no palácio, dando uma de Aécio, pensando que no fim da revolta ele seria empossado como novo rei, numa atitude cruelmente ingrata com Davi.

Só que não foi assim. A gratidão de Davi por Mefibosete foi retribuída em igual proporção. Ao voltar a ser rei de Israel, Davi se depara com um Mefi de volta à sarjeta. Sujo, desleixado com a aparência, com roupas rasgadas, um mendigo em protesto. Uma metáfora humana. E explica a sua versão: em vez de desprezar o rei e buscar usurpá-lo, ele queria estar do lado dele. Sua condição física o impediu, e foi traído por Ziba, que o abandonou, o encarcerou, e ainda ficou com todos os méritos.

E aí vem o último “tchan” da história. Davi sabe que a versão de Mefi é mais verossímil que a de Ziba, mas, sabe como é... uma palavra contra a outra. Então, decide: “Metade para cada um!”. E nessa hora Mefi mostra seu bom caráter. Inocente, ele abre mão de tudo, pois quer deixar bem claro que o que ele realmente deseja não são benefícios do rei, e sim ver Davi vivo e bem. Bacana. A propósito, esse finalzinho da história é idêntico àquela situação das “duas mães” de Salomão. Já tinha percebido?

Nós somos Mefibosetes também. Caímos lá no começo, quando permitimos que o pecado entrasse no mundo. Estávamos numa situação deplorável. Esperando muito pouco além da morte. Mas o grande Rei nos chama. Ele quer dar algo que não merecemos. Que nem sequer sonhamos. E pode ser que mesmo depois de entrarmos no banquete do Rei passemos por situações difíceis. Sejamos traídos, por exemplo, fiquemos de volta a situações de muita aflição. Mas o Rei vai voltar. E ele vai nos recompensar. Se tivermos gratidão por ele, como ele teve por nós.

Não peço que concordem, espero que reflitam!


Desafio do JOBS: Quem escreveu o livro que antecede Apocalipse?
Resposta semana que vem.
Resposta da semana passada: Mefibosete (II Samuel 4:4).

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