sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

FACILITE A MINHA VIDA


FACILITE A MINHA VIDA
Por Denize Vicente

Eu moro numa cidade que adotou o sistema de cobrança de pedágio urbano. É desagradável e pesa no bolso, mas é o que temos. Dia desses eu parei o carro na cabine de pagamento. Logo na entrada da via expressa eu vi uma placa pedindo que a gente facilitasse o troco. Pra não exigir muito do motorista, a concessionária já faz as contas e adianta o valor: “Facilite o troco com R$0,40”. O pedágio custa R$5,90, e quando eu parei na cabine, a jovem, muito automaticamente gentil, me perguntou:
- Tem 40 centavos ou 90 centavos?


Oi??
Sorri e balancei a cabeça, dizendo “não”. Ela me deu duas notas de dois reais e mais dez centavos. Eu parti.


Dias depois eu fui a Niterói. Niterói é outra cidade do estado do Rio. Também tem pedágio, pra se chegar lá usando a ponte – uma via intermunicipal. Custa R$4,00 a tarifa. Dei uma nota de R$20,00, recebi o troco. Parti. Na volta, precisei pegar novamente uma via expressa urbana. Cobrança de pedágio. Pra diminuir o tempo de espera na fila de pagamento há alguns cobradores no meio do trânsito – os “papa-filas”. Entreguei uma nota de R$20,00. A jovem cobradora recusou, dizendo que só podia aceitar dinheiro trocado; que eu fizesse o pagamento na cabine.



Oi??
Cheguei à cabine, entreguei o dinheiro à garota e ela me fez a mesma pergunta daquela outra jovem, da outra via expressa, daquele outro dia, lembra?:
- Tem 40 centavos ou 90 centavos?

Oi??
Sorri e balancei a cabeça, dizendo “não”. Para minha surpresa, ela me entregou de troco uma nota de dez reais, uma nota de dois reais, e todo o restante do dinheiro em moedas. Isso mesmo! Depois de me pedir quarenta centavos ela me deu R$2,10 em moedas – quase todas de dez centavos.


Admito, eu quase puxei o freio de mão pra iniciar uma conversa:
- Então você me pede quarenta ou noventa centavos e tem todas essa moedas pra me dar de uma vez... Fale-me mais sobre isso.

Quase. Mas preferi não envolver a moça nos meus pensamentos: é assim mesmo que muita gente faz na vida, né?

Veja bem: a concessionária cobra R$5,90 e me pede pra facilitar o troco com noventa centavos. Isso não é “facilitar o troco”. Facilitar seria dar um real, concorda? Ela quer mais que facilidade. Muito mais. Quer que o consumidor, que já tem que desembolsar um alto valor da tarifa pra ir e o mesmo alto valor pra voltar, tenha que ter no bolso cento e oitenta centavos, ou seja, que ele vá ao banco trocar dinheiro, tarefa que compete ao empresário.

O curioso: a concessionária, que trabalha com isso, em tese não tem dez centavos; mas eu deveria ter noventa, ou pelo menos quarenta!

E o mais incrível: ela pede que você dê, mesmo sem precisar, porque ela já tem – ou não me daria aquele troco com tantas moedas!

Convido você a refletir sobre isso...


Quantas vezes você espera ou exige do outro aquilo que nem você tem para dar? Você, que deveria ter dez, mas não tem, pede do outro quatro vezes mais que isso – quem sabe, até, nove vezes mais! Você acha bonito isso?

Vendo a mesma situação sob outro prisma: quantas vezes você, que tem dez, mas não quer abrir mão do que tem, pede que o outro facilite a sua vida entregando quarenta ou noventa? Quantas vezes você pede, mesmo sem precisar? Só por comodismo. Só pra transferir obrigações e responsabilidades.

Pense também sobre quantas vezes você faz o outro confessar que não tem noventa, nem mesmo quarenta, pra em seguida ostentar que tem mais de duzentos?

Por fim, pensando no “papa-filas” que só queria papar a comidinha mastigada, reflita sobre quantas vezes você, que tem estado aqui neste mundo pra facilitar a passagem dos demais serumaninhos pelos obstáculos da vida, mais atrapalha do que ajuda? Se você, que está ali para ajudar, empurra o problema pro jovem da cabine à frente, a fila só aumenta. E não foi pra isso que criaram os papa-filas...

Perceba que não estamos falando, exatamente, de dinheiro.

Peço a Deus que este texto não tenha absolutamente nada a ver com você; que não lhe diga nada, porque você não age assim. Mas peço também que você tenha a humildade necessária para reconhecer, se for o caso, que tem agido de uma forma completamente desleal com o seu próximo. E que, reconhecendo isso, decida mudar; porque ainda há tempo pra recomeçar.


Pense bem.

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