terça-feira, 1 de novembro de 2016

QUERIDO AMIGÃO, OBRIGADO POR PARAR DE FUMAR



QUERIDO AMIGÃO, OBRIGADO POR PARAR DE FUMAR
Por Airton Sousa

Hoje eu volto a falar sobre o cigarro. Sabe por quê? Porque enquanto pesquisava sobre o cigarro e seus malefícios encontrei uma carta de 2009. O remetente era eu mesmo. Como assim, amigão? Não sei, não me pergunte, mas eu achei essa carta que foi escrita por mim “em 2019” e que eu recebi em 2009. Entendeu? Vamos à carta:

Dear amigão de 2009

Aposto que quando você ler esta carta vai estar sentado na frente do computador e fumando um cigarro. E é exatamente sobre isso que eu queria falar com você.

Você que sempre disse que gostaria de morrer só depois que o Ryan crescesse, lembra? Pois ele está crescendo e você/eu estamos morrendo. E sabe por quê? Por causa da porcaria desse maldito cigarro.

Enquanto você está lendo essa carta, eu sei, você está tossindo e suas pernas estão doendo. Você não consegue caminhar até a estação do trem, você não tem mais aquela disposição que tinha, e não é porque você está gordo. É por causa da droga do cigarro mesmo.

Os primeiros sintomas de que a coisa estava preta foram aquela tosse, a dor de cabeça e a gastrite. Já eram sinais de que a nossa saúde estava sendo prejudicada pelo fumo.

Nem vou listar aqui todos os malefícios do fumo, você/nós sabemos. Lembra quando nós tínhamos 12, 14, 16 anos? A gente sabia tudo sobre os males do fumo, ganhamos até prêmio como melhor orador na semana antitabaco da escola. E por que cargas d’água resolveu fumar depois de velho?

Se você parar agora será para o nosso próprio bem, o nosso organismo irá recuperar-se dos danos causados pelo cigarro; em caso dessa doença já estar instalada, vai evitar sua progressão e melhorar nossa qualidade de vida.

Olha, o Ryan cresceu e tem muito orgulho do vovô; os nossos duzentos sobrinhos também cresceram, já somos tio-avô de vários netinhos. Você conseguiu aposentar-se e morar na praia. Sabe aquele sonho de comprar um terreno imenso e construir oito casas em volta da piscina, uma para cada irmão e cada casa com a plaquinha esculpida com o nome deles? Nós conseguimos! Estamos morando em uma chácara em Angra dos Reis, naquele terreno que você cobiçou a vida inteira, perto da praia. Construímos do jeito que a gente sonhou. Tá pronto e está enorme e todo mundo se reúne em volta da piscina e da churrasqueira quase todos os domingos. Tem até uma capelinha que você construiu para a mamãe orar e não ter que caminhar até a igreja todos os sábados. Falar em mamãe, a velhinha está inteirinha, forte e sadia, só você que não... A casa vive lotada de gente jovem e bonita; são os nossos sobrinhos e os amigos e namorados e namoradas deles.

Mas hoje, especialmente hoje, quando estou escrevendo esta carta para o passado, todos estão tristes. Chegaram os resultados dos exames médicos.

Tudo começou com uma forte insuficiência respiratória, falta de ar e cansaço. Nós começamos a nos cansar ao menor esforço físico; e agora, os resultados; e eu nem vou falar o que o médico disse para não te deixar nervoso, aliás deveria falar, mas você, aliás, nós somos inteligentes para saber o que vai acontecer. Por isso todos hoje estão tristes. Muito tristes.

O Ryan está muito bravo com a gente, ele sempre dizia: “Vô, faça como meu pai: pare logo de fumar.”.

Hoje era dia de festa, mas em vez de festa há uma ambulância aqui na porta de casa. E você precisava ver os olhinhos de lágrimas do Ryan, pois é ele quem está digitando esta carta enquanto eu, com voz fraca, vou ditando para ele. 

Pois é, seu grande idiota, vamos passar uma grande temporada no hospital e não sei se vamos voltar. Os médicos comentaram que tudo poderia ter sido evitado se você tivesse parado de fumar uns dez anos atrás.

1 amplexo,
Amigão de 2019.

Esse texto foi escrito em 2009 e publicado no blog “A turma do Amigão”. Na época eu fumava mais de dois maços de cigarro por dia. Foi o ano em que o Ryan, meu neto, nasceu. Parei de fumar em 2016, exatamente três anos antes da data da carta.


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