segunda-feira, 6 de março de 2017

“EU SÓ QUERIA SENTIR O SOL NA MINHA PELE”


“EU SÓ QUERIA SENTIR O SOL NA MINHA PELE”
Maria Paula - Niterói-RJ
 
Recentemente, soube da morte de um amigo. Era uma pessoa querida. Foi-se muito cedo. Na verdade, aos nossos olhos imaturos, talvez fosse possível afirmar que sua vida já não tinha muita vida mesmo. Ou talvez nunca tenha tido. 


Ele tinha insuficiência renal crônica e possivelmente mais algumas complicações que eu não saiba direito, uma estrutura familiar bem complicada e vivia no hospital há alguns anos (não sei precisar quantos). O que mais choca é que tinha mais ou menos a minha idade. Era jovem, o rapaz.

Diferentemente do que se possa imaginar, esse amigo era alegre e, ao mesmo tempo, genioso. Fazia exigências quando íamos visitá-lo: “traga aquela música num pendrive pra mim”, “traga chocolate”, “faça um Facebook pra mim”, “liga meu rádio aí”, “pega minha camisa ali no armário”. Ninguém sabia negar-lhe um pedido sequer. Ele era exigente, como o amor. Estava certo. Devia exigir mesmo. Se o amavam, então fariam. Era uma equação tão simples, que, sem fazer conta nenhuma, deitado em seu leito, ele mesmo resolvia rapidamente.

Pra ser mais sincera, esse amigo era, na verdade, o amigo de um amigo, que algumas vezes me levou até o hospital para fazer essa visita e a quem sou muito grata por ter me apresentado a esse gênio. E sou grata, ainda, porque quando eu lhe disse que havia ficado perplexa com a notícia da morte desse ser humano incrível, exigente e alegre, ele me lembrou de uma promessa que não deve ser esquecida nunca. Ele me falou sobre o Céu, um lugar lindo onde todas as coisas farão sentido.

Eu tinha me esquecido do Céu, acredita? A vida é tão recheada de ceticismo que a nossa fé começa a se limitar às coisas que são naturais. Fé no aqui e no agora; fé que a provação que estamos vivendo vai passar; fé que seu parente será curado de determinada doença; fé que pessoas conhecerão a Deus... mas, espera! A vida não se limita ao que vemos. É preciso aceitar que existem coisas que estão além da nossa compreensão, que estão além do que podemos ver, tocar ou imaginar. A nossa vida tem um propósito. O propósito da nossa vida é passar a Eternidade com Deus. Por isso e para isso existimos. Por isso, talvez, não consigamos entender o fim. Não fomos programados para ele. Então, buscamos conforto em nossas lembranças e em algumas filosofias atuais criadas por nós mesmos ou por gente como a gente.

Mas a verdade é que o sobrenatural nos cerca e, às vezes, a vida o traz à tona. E, aí, somos lembrados de que o que é sobrenatural é, também, real. E é isso que conforta o nosso coração. Conforta saber que naqueles dias em que esse amigo especial se queixava de não poder sair de seu quarto e ir lá fora sentir o sol batendo no rosto Deus já estava desenhando mil ‘sóis’ pela eternidade, pra bater em seu rosto quantas milhões de vezes ele desejar. E ele desejará muito. Se deixar, exigirá.


Como eu disse, ele era exigente como o amor. E, às vezes, nós, amantes, mas também amadores nessa arte, não pudemos corresponder-lhe totalmente. Eu não passei lá pra fazer a visita prometida e meu amigo também disse não ter conseguido lhe entregar o último chocolate. Com certeza, uma lástima, mas não um lamento eterno. Eterno mesmo é o Amor que o receberá no porvir e, ainda, aquele que repartiremos, em pleno estado de saúde física, mental e espiritual, uns com os outros. Será um amor pleno, que não é egoísta, que não é soberbo e que ficará ao sol, sentindo os raios no rosto por quantas manhãs forem necessárias.

Meu coração está cheio de gratidão pelos sóis da eternidade e pela oportunidade de ter aprendido, ainda aqui nesta vida, que o amor é exigente como o meu amigo. É preciso amar e lembrar que esse é um sentimento eterno. Até o Céu, querido! Nós nos veremos!

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