quarta-feira, 8 de junho de 2016

NÃO MAIS ESCRAVO


NÃO MAIS ESCRAVO
Por João Octávio Barbosa

1968 foi o Ano Internacional dos Direitos Humanos. Ironicamente, foi o ano dos ápices da Guerra do Vietnã e da violência da Ditadura Brasileira. Fica pior: foi o ano de estreia da revista Veja. Não acabou. Um dos nomes mais louváveis do século foi assassinado: Martin Luther King Jr. Num 8 de junho como hoje, também de 1968, James Earl Ray, autor do crime, foi preso. Ele não aceitava as ideias de igualdade social e étnica de MLK Jr. Há homens melhores que outros homens, James pensava. Pressuposto ideológico da escravidão da Idade Moderna.


O tema da escravidão, na Bíblia, é constantemente citado por seus críticos como algo do desejo de Deus. Podem humanos ter direito à propriedade de outros humanos? O apóstolo Paulo dedicou uma carta (e por que não dizer: Deus dedica um espaço em Sua Palavra?) para falar, especificamente, do seu desejo de ver todos os humanos como seres iguais aos olhos de Cristo, que não faz acepção de pessoas (Romanos 2:11).

Estou falando do livro de Filemom, um dos menores da Bíblia, com apenas um capítulo. Você pode lê-lo, rapidamente, numa Bíblia em sua casa, ou aqui na internet. Nos 25 versos desse capítulo não há instruções a igrejas, doutrinas detalhadas, ou profecias para o tempo do fim. Só uma conversa direta de Paulo com Filemom. O discípulo, com autoridade de líder da igreja, orienta Filemom a não enxergar mais Onésimo como sua propriedade, e sim como seu irmão.


Onésimo tinha sido escravo de Filemom. Aparentemente, Paulo pregou e o Espírito Santo converteu Onésimo enquanto ambos (ou pelo menos Paulo) estavam presos, algo que aconteceu depois de ele fugir do seu dono. Paulo começa a carta elogiando Filemom, quase que massageando seu ego, e mostrando que se ele é tão cristão como aparenta não iria negar o favor que Paulo pediria. Então, ele roga que Filemom perdoe Onésimo e o receba de volta.

Onésimo pode ter fugido por ter sido maltratado, ou, simplesmente, pelo seu direito de ser livre. Mas o texto leva a crer que Filemom, agora, era um fiel seguidor de Cristo, e devia rever seus conceitos sobre o que o dinheiro e o poder realmente significavam, e que nem mesmo ambos lhe davam direito de ter posse de alguém.



A parte mais bonita da carta está nos versículos 15 e 16. Poderia haver raiva, rancor, prerrogativa de castigo ou vingança, e toda sorte de sentimentos ruins entre uma pessoa inconformada com seu estado de escravo, e outra, se sentindo traída e injustiçada com a fuga do que era “seu”. Mas Paulo pede, encarecidamente, que esses dois seres humanos divididos por todos esses sentimentos se relacionassem agora como “irmãos caríssimos” e “para sempre”. Uma grande lição para nossa reflexão pessoal. Como temos reagido a pessoas com quem tivemos problemas no passado, até mesmo as mais próximas?
         
E a questão da escravidão? Filemom é um livro muito oportuno para falar sobre a visão bíblica sobre esse assunto. Os cristãos são alvo de críticas, pois seu Guia, a Bíblia, "autoriza a escravidão", em especial no Velho Testamento. O povo de Israel fazia escravos entre os povos inimigos e até mesmo entre si - aqueles israelitas que se endividavam com outros. E havia leis dadas diretamente por Deus para tratar de todos esses casos. 



Conclui-se que Deus era a favor da escravidão? Creio que não. Conclui-se que Deus era permissivo em relação à escravidão, principalmente para que em lugar dessa “escravidão Divina”, criada e regulamentada para coibir excessos, houvesse uma libertinagem com margem para todo tipo de maldade.

O povo de Israel foi pioneiro em leis que protegiam os escravos, concedendo-lhes muitos direitos, coisas que em alguns povos da época seriam absurdas. Entre as regras de proteção à humanidade dos escravos a mais interessante era que todo israelita não ERA um escravo. Ele ESTAVA um escravo. Havia um prazo para sua libertação, que era o ano do Jubileu, que acontecia de tempos em tempos. Quem conhece História sabe que no Brasil, por exemplo, os escravos não tinham prazo de libertação, até o século XIX.



A Bíblia legitimou por algum período a escravidão não para que o povo aprendesse a tratar alguns como superiores a outros, mas, sim, porque Deus sabia que esse desejo de subjugar o próximo é, inevitavelmente, humano, e eram necessárias algumas regras sobre isso.

Mas esse não é o plano original de Deus. Ele quer que vivamos como irmãos, e Paulo quis mostrar isso para Filemom. Nem no primeiro século, nem na época da Princesa Isabel, nem no futuro o cristão deve olhar o negro, o branco, o gay, o analfabeto, o deficiente nem qualquer outra diversidade humana como inferior. Somos da mesma família, com a mesma carência principal: a libertação em Jesus.

Que Deus nos ajude a ter essa visão dentro de nós, para que nem sequer precisemos nos lembrar disso, mas enraizemos esse pensamento no nosso dia a dia e nas relações pessoais, brilhando assim o amor de Jesus para toda tribo, raça, língua e nação.

Ide.

Não peço que concordem, espero que reflitam! 

 

 
Desafio do JOBS:
Resposta da semana passada: Filemom (Filemom 1-25).



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