RECEITAS CASEIRAS SÃO AS MELHORES
Por
Denize Vicente
Leo
Buscaglia tinha o divertido costume de entrar no elevador e, em vez de ficar de
costas pras pessoas, ficava de costas pra porta. E aí dizia: "Seria tão bom se o elevador quebrasse e a
gente pudesse ficar aqui conversando, se conhecendo...".
Por alguma razão, as pessoas todas desciam no andar seguinte com a impressão de que havia um louco no elevador - "e ele quer nos conhecer!".
Por alguma razão, as pessoas todas desciam no andar seguinte com a impressão de que havia um louco no elevador - "e ele quer nos conhecer!".
Antoine
de Saint-Exupéry, no seu livro O PEQUENO PRÍNCIPE, conta de uma conversa que
aconteceu entre a raposa e o principezinho...
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o príncipe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços"...
- O que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não
és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu
não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me
cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E
eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou à sua ideia:
Mas a raposa voltou à sua ideia:
- Minha vida é monótona. E por isso
eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia
de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros
me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E
depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para
mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram de coisa alguma. E isso é
triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então será maravilhoso quando me
tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o
barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me!, disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipe, mas
eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas
que cativou, disse a raposa. Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma.
Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os
homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves
esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas!
Quando li o livro pela primeira vez fiquei muito impressionada com esse trecho que falava sobre essa coisa de se comprar tudo prontinho e sobre as inexistentes lojas de amigos.
Um texto tão
antigo e tão atual! O capitalismo, com todo o seu avanço, ainda não nos
disponibilizou essas tais lojas de amigos... e as pessoas, cada vez mais, estão
se distanciando umas das outras, mesmo estando perto, sem gastar tempo pra cativar
alguém. Ninguém cria laços; no máximo, dão nós.
“Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma.”
Há uma expressão
belíssima que ouvi muito, no Chile, e que apesar de incorreta para os
gramáticos1 é popular e frequentemente
usada pelos chilenos. Eles dizem “me encanta mucho”, quando gostam demais de alguém
ou de alguma coisa.
Pois muito
me encanta perceber que para além de se tornar eternamente responsável por aquilo
que cativa a gente é recompensado por isso. Cativar é criar laços, é sumir com
a monotonia, olhar os trigos de outro modo, ter uma vida cheia de sol... E
ainda que a distância afaste os amigos, num dia desses ou numa noite qualquer, mais
cedo ou mais tarde, ao se reencontrarem, vocês verão que tudo, absolutamente
tudo permanece como era, pra fazer você feliz - as risadas, a alegria, não há
monotonia, a vida se mostra cheia de sol, o barulho diferente dos passos continua igual, o barulho
do vento no trigo ainda desperta o amor... tudo, tudinho.
Pare com
isso de não ter tempo, de ter mundos para conhecer sem cativar e amigos para
descobrir longe daqui... Pare com essa ideia de conviver com cem mil garotos ou
raposas todos iguais. Chega de não ter necessidade do outro... Se você cativar
alguém, vocês terão necessidade um do outro. Isso é criar laços; isso é fazer
amigos. Isso é experimentar o “para sempre”.
Provavelmente,
a história mais famosinha de amizade entre duas pessoas, na Bíblia, seja a de
Jônatas e Davi (I Samuel 18).
Eles se tornaram BFF2 (v.1 e 3), e
numa ocasião, quando Davi corria risco de morrer, ele e Jônatas combinaram uma
grande jogada, para que Davi escapasse da morte (I Samuel 19:1-3); e deu certo.
Quando a gente cria laços, cativa, conhece, a gente se torna responsável pelo
outro. Eternamente. Davi e Jônatas se separaram, mas nada do que havia entre
esses amigos se perdeu, tudo o que existia nessa amizade permaneceu.
O livro de Provérbios
nos diz que “O homem que tem muitos
amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão.” (Provérbios 18.24). Uma espécie
de amizade que valoriza o amor, a lealdade, a fidelidade e o compromisso é
mesmo tudo o que precisamos.
Que bom que
não existem lojas de amigos! A gente pode “produzir” em casa e receitas
caseiras são mesmo as melhores.
Tenha tempo
para cativar. Os humanos e os divinos. Citando Alejandro Bullón, eu diria: “Conhecer
Jesus É Tudo”. E como conhecer se não cativar?
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Referências:
1.
Encantar es un verbo superlativo
de por sí y no admite gradación. Es un verbo que tiene un sema de mayor
intensidad, expresa máxima intensificación. No se puede emplear mucho
con el verbo encantar. Por su grado de máxima intensidad, encantar
no admite comparación. Así no se puede decir que una cosa me encanta más que
otra o que algo me encanta mucho, porque encantar ya implica
‘gustar mucho’. – Disponível em <http://hispanoteca.eu/Foro-preguntas/ARCHIVO-Foro/Encantar%20-%20gustar%20mucho.htm> –
acessado em 08.06.2016.
2.
“Best Friends Forever” – Melhores Amigos
Para Sempre
Lindo lindo lindo.. um dos meus livros preferidos..um dos trechos preferidos..mas é verdade.. infelizmente as pessoas deixaram de lado e esqueceram o valor do "cativar" os poucos que cativam acabam se "cansando" e deixando suas "raposas" e"principes" de lado.. mas nunca é tarde para tentar construir o hábito de criar laços.
ResponderExcluirCah, acabei de comprar uma edição especial de "O Pequeno Príncipe". Linnnnnnnda!!!! Cheia de detalhes dourados... rsrsrsrs A coisa mais munita do mundo!!!
ExcluirBelíssimo texto!
ResponderExcluir:)
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