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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

OUVIRAM DIZER LÁ EM EDE


OUVIRAM DIZER LÁ EM EDE
Por João Octávio Barbosa

Coincidências são as coisas mais curiosas. Pois bem, pesquisei sobre hoje, e descobri que estamos no aniversário de dois eventos totalmente paralelos, que tratam do mesmo assunto, e nos ligam à história sobre a qual falaremos a seguir.


Em 1945, a Iugoslávia foi o primeiro país a integrar a ONU. Todavia, décadas depois, essa República se desmembrou em pequenas nações (Sérvia, Bósnia, Albânia, Croácia, Kosovo, e outras) que sofreram na pele essa separação, banhada, por vezes, com sangue. Exatamente 34 anos depois (hoje, exatos 37 anos atrás), Brasil, Argentina e Paraguai assinaram o acordo para a represa elétrica de Foz de Iguaçu, uma obra que usa um único rio para dar energia a três países.


Relações internacionais e acordo entre povos. Hoje, o nosso Perfil Sem Curtidas não é uma pessoa. É uma história. Uma situação confusa entre grupos de uma mesma nação que se separaram (como a Iugoslávia), ou, também podemos chamar assim, uma completa falta de acordo entre países vizinhos (o inverso de Foz do Iguaçu). Deleite-se com a desconhecidíssima história de Josué 22.

Vamos a alguns contextos, aqui. Imagine uma terra farta, cortada por um rio. Israel deveria ocupar esse território, atravessando esse rio. Uma parte do povo de Israel (as duas tribos e meia, da história) gostou do pedaço de terra que ficava antes de atravessar o rio. Ao fim da ocupação, eles decidiram voltar para esse pedaço, e se estabelecerem lá.


Ok, só que isso gerava uma distância. Mais que geográfica, era uma coisa ligada à identidade nacional. Aquele lugar, a leste do rio Jordão, era ainda um pedaço de Israel? Ou lá se estabeleceria uma nova nação, um povo independente, uma fronteira internacional? Indefinição na mente do povo que fica, observando o povo que vai.

Na despedida, o líder Josué agradece e enaltece o fato desse povo ter lutado pelos seus irmãos numa terra que nem ficou para eles. E recomenda: acima de tudo, mesmo distantes, não esqueçam que temos um só Deus.

Eis que surge o altar da discórdia. Já na fronteira final da sua nova terra, à margem do rio, o povo das duas tribos e meia levanta um altar de pedra “de grande aparência”. Do povo que ficou, ninguém estava lá. Ninguém viu acontecer, nem o porquê de ter acontecido.


E vem o ponto-chave de hoje. O começo do verso 11. Ênfase minha:
Ouviram dizer os filhos de Israel: Eis que [aqueles das duas tribos e meia] edificaram um altar (...)”. Josué 22:11

ÊEEEEEEEEEEEEEEEEEEPAAAAAA! (Leia com a voz da Vera Verão; fica mais divertido!!) Peraí, amiguinho! Ouviram dizer ONDE? Ouviram dizer DE QUEM? Como assim? Que fofoca é essa que surgiu sem fonte? Que julgamento foi esse, que veio sem investigar? “Julgamento”, eu digo, porque após o povo de Israel descobrir desse altar dos vizinhos, já pressupôs que esse altar era para adoração a ídolos, e uma apostasia a Deus. E foram tirar satisfação com os vizinhos com armas em punho para a guerra! Isso é claro em Josué 22:33.


Com o dedo em riste e o bigode penteado, chegaram perguntando: “Por que abandonaram a Deus? Que blasfêmia é essa? Ficam 5 minutos depois do rio e já esquecem que são povo de Israel? Si num guenta pq veio?”. Ou seja, maior sermão do tipo moralizante.

Mas, ora, ora, quem diria... Depois de já terem condenado aquele povo foi que eles decidiram ouvi-lo. E a justificativa para o altar não poderia ser mais coerente! Ele estava ali justamente para ser o memorial de um sentimento inverso àquele que ficou de rótulo. O altar era uma lembrança física para futuras gerações, as quais teriam nele a certeza: antes e depois do rio, há um só povo, que segue a um só Deus, o Verdadeiro, Criador, e Salvador de Israel e de todos os vizinhos internacionais.


Isso que eu chamo de um tapa na cara da sociedade. Aí eu volto lá atrás: “ouviram dizer”! Ouviram, mas não escutaram. Pensaram o pior, e estavam errados. Basearam-se numa fofoca que nem tinham entendido, e quase fizeram guerra. Do nada, por nada. Meu Deus, gente... que perigo!

Isso é coisa de tempos bíblicos? Quantas vezes você já viu alguém começar uma conversa com “ouvi falar...”? Quantas certezas você tem na vida baseadas no que você “ouviu falar”? Quanto de desinformação você já propagou provinda do que você “ouviu falar”?

Quantas vezes você já julgou alguém do outro lado do rio? Quantas vezes você achou que estava defendendo Deus para um pecador sem saber se o pecado existe, sem saber de toda a verdade por trás da sua certeza? A certeza do que você ouviu falar. Sem saber se o errado não era você...

Faltou amor? Então falta compreensão, calma, paciência, sensatez. Não deixe faltar o amor. Ouvi falar que lá em Ede (Josué 22:34) isso deu maior problema...



Não peço que concordem, espero que reflitam!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SULFECHANDO Y OTRAS COSITAS MÁS


SULFECHANDO Y OTRAS COSITAS MÁS
Por Denize Vicente

Mario Prata1 conta que seu primo Hugo Prata perguntou ao pai dele, tio de Mario, o que significava o verbo “SULFECHAR”. O pai disse que o verbo não existia, o garoto não se conformou com a resposta e o homem teve que provar com dicionário e tudo! Mas o menino insistia em conjugar o verbo, e o pai quis saber onde ele tinha ouvido essa coisa doida. Foi quando Hugo cantou aquela música do Tom Jobim: "São as águas de mar sulfechando o verão...".

O mesmo Mario Prata nos conta que Henfil2, pasme!, só descobriu depois de grandinho” que o nosso Hino Nacional não se chamava “O Virudum.

E foi lendo essa crônica (“O amor de Tumitinha3) que fui levada a me lembrar de tantas outras coisas que ouvimos e muitas vezes entendemos de modo completamente diferente do original... Eu seria até capaz de apostar umas jujubas que você acabou de pensar em “... trocando de biquíni sem parar”, clássico exemplo, talvez o mais famoso, de “(de)composição” – verso da música de Cláudio Zoli, que escreveu alguma coisa bem diferente: “... t
ocando B.B. King sem parar".

Pois bem.
Hoje eu queria falar sobre mal-entendidos.

Não raramente você interpreta olhares, risos ou sorrisos, palavras e até mesmo a omissão de alguém, do jeito que seu coração decide explicar - e por isso sofre, despreza, desama e odeia, experimenta amargura e prova do gosto azedo da irritação, da mágoa e do desapontamento. Esquecendo-se da lição de Jeremias, dá ouvidos ao seu coração ou embarca no que ouve, por outras bocas, de outros corações, enganando-se e adoecendo. “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa, e sua doença é incurável.” (Jeremias 17:9)

Muitas vezes VOCÊ é o “abominável” - mal interpretado por algum coração, quando simplesmente quis ajudar ou fazer alguma coisa; tido como “exibido”, “intrometido”, o cara que “quer aparecer”...

Mesmo quando temos bons motivos, a motivação correta e intenção louvável, estamos sujeitos a ser mal interpretados; e o mesmo acontece com os outros, quando, às vezes, nós os julgamos de modo precipitado, levados, unicamente, pelo nosso enganoso coração...

Mal-entendidos acontecem até mesmo quando dizemos “EU TE AMO” - o outro pode entender que o “risinho de nervoso” que você deu em seguida, na verdade é de deboche... Mal-entendidos acontecem quando você conta no WhatsApp que está triste porque terminou o namoro, e seu amigo coloca um "emoticon" com lágrimas, mas usa o bonequinho que está chorando de rir.

Essas coisas acontecem. Mas o que fazer?

Eu tenho uma ideia: converse. Converse muito. Pergunte e responda. Converse. O diálogo é o modo mais apropriado para desfazer mal-entendidos e para entender as intenções e motivos de alguém. E outra: seja VOCÊ a tomar a iniciativa do diálogo, não importa em que posição se encontre – “ofendido” ou “ofensor”.

Nesse papo as coisas ficarão mais claras, vocês podem perceber que o erro foi de interpretação, e então já não haverá razões para a amargura.

Mas... e se foi vacilo mesmo? Má intenção de verdade? E se o outro quis mesmo, deliberadamente, agir mal com você?

Jesus disse que, nesses casos, quando alguém vacilar feio com você, você deve ir falar com ele; e se for isso mesmo, você deve perdoá-lo; e disse mais: se ele fizer isso sete vezes no mesmo dia, e se em todas as sete vezes ele chegar pra você dizendo que está arrependido... perdoe o cara. (Lucas 17:3-4)

Eu sei e você sabe: não é fácil.
Não é fácil dialogar mesmo com a chance de descobrir que tudo não passou de um mal-entendido, quanto mais quando existe a possibilidade de notar que foi tudo má intenção, mesmo. Mais difícil ainda é perdoar. Eu sei e você sabe: não é nada fácil. Mas, como disse Vinicius, “... para isso fomos feitos: para a esperança no milagre...4. Perdoar, para nós, é como um milagre que nos acontece, porque nossa natureza humana gosta mais da Lei de Talião, do Código de Hamurabi5. Mas milagres acontecem, e não se explicam, você também sabe disso.

Pensando bem, quanto mais cedo percebermos que a mágoa e a ausência de perdão fazem mais mal a quem sente e a quem não perdoa, mais rapidamente vamos conhecer um estilo de vida que tem mais a ver com a felicidade do que com a angústia. E, vamos combinar, viver feliz é muito mais legal.

Experimente!

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Referências:

1.   Mario Prata é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista brasileiro, nascido em Uberaba/MG, em 11.02.1946. Premiado no Brasil e no exterior, suas obras são reconhecidas no cinema, na literatura, no teatro e na televisão.
3.  Henfil Henrique de Souza Filho (1944 – 1988) foi jornalista, especializado em ilustração e produção de histórias em quadrinhos, escritor premiado, cartunista consagrado, trabalhou com cinema, teatro e televisão. Irmão de Herbert José de Souza, o Betinho, e de Chico Mário.
4.    Vinicius de Moraes – Poema de Natal, in "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.
5.    Lei de Talião e Código de Hamurabi - http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/hamurabi.htm