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domingo, 16 de agosto de 2015

QUE VONTADE DE ORAR!

QUE VONTADE DE ORAR!
(Por Suzi)

Chico Buarque se tornou parceiro de Vinicius de Moraes por insistência do poeta. 1969 - Vini estava pondo letra em "Gente Humilde", o chorinho composto em 1952 por Aníbal Augusto Sardinha, que conhecemos como "Garoto".

"Faz dois versos...", pediu Vinicius; "... vamos virar parceirinhos.". 
E então, foi uma espécie de presente de compadre para Chico, num ano de exílio em Roma. Ele escreveu: "Pela varanda / flores tristes e baldias / como a alegria / que não tem onde encostar." Conta Humberto Werneck que Chico, em seguida, confessou que nem sabia o que tinha querido dizer com os versos. Mas Vinicius o incentivou. Vinicius entendia das coisas...

Eu choro todas as vezes que ouço essa música. Talvez Chico não soubesse o que queria dizer com seus versos. Mas, quem os ouve, compreende. Essa música me parte o coração. 
É... "Que vontade de chorar!"

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar


Você sente também uma vontade de chorar?
E você, que crê, também tem pedido a Deus por sua gente?
A oração intercessora é aquela que a gente faz para o benefício de outros. Neste domingo, lembre-se de pedir a Deus pelos que sofrem, pelos que estão sem esperança, pelos que estão sem ter o que comer e beber, e também pelos que sorriem, mesmo quando tudo o que têm são motivos pra chorar, pelos que trazem a alegria no peito, mesmo sem nem ter com quem contar...  pelos que têm fé no coração mesmo quando tudo parece perdido.
Peça a Deus por sua gente.
Cante a música de Aníbal Augusto Sardinha, Chico e Vinicius, e ao final troque os versos...:
"Que vontade de orar...".

Ore por alguém, neste domingo. 
Oremos uns pelos outros.
E tenhamos todos um dia abençoado!

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Referência:

Chico Buarque - Tantas Palavras - Todas as Letras (Edição revista e ampliada de CHICO BUARQUE: LETRA E MÚSICA) – Reportagem biográfica: Humberto Werneck. Companhia das Letras, 2006, p. 117.

domingo, 26 de julho de 2015

VERDE QUE TE QUERO VER

VERDE QUE TE QUERO VER
(Por Suzi)

Já há algum tempo eu tenho me programado para passar a manhã do domingo no meio das árvores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E aí, a cada final de semana é uma coisa que acontece... e a ideia fica na cabeça e não passa pras pernas. Geralmente é a chuva. Outras vezes, a chuva e o sono. Algumas outras, o trabalho.
Enfim...

Assim como uma porção de gente que mora pertinho da praia nem pisa na areia, também existem muitos que moram no bairro do Jardim Botânico e, mesmo assim, não aproveitam aquela exuberância da natureza. E se puderem ter um vasinho com hortelã na janela da cozinha já consideram isso um bom contato com o verde... Que pena!

Nós nos acostumamos tanto ao barulho das ruas e aos monóxidos de carbono, que ter uma pracinha arborizada em frente de casa, mesmo que cheia de carros estacionados ao redor dela, já parece ser suficiente como "contato direto" com a natureza. E aí, seja pela correria do trabalho, seja por outros compromissos, seja porque nem ligamos pra isso... vamos deixando de aproveitar de verdade os pedacinhos do céu que Deus deixou no Rio. Que pena!

O Jardim Botânico tem algo de especial, pra mim. Meio mágico, até. Aquelas palmeiras imperiais têm um quê de Jardim do Éden. Eu imagino que o paraíso, de certa forma, faça lembrar o Jardim Botânico da minha cidade. Você mergulha naquele verde, ouve os barulhinhos de água e de pássaros, e esquece as buzinas lá de fora, a poluição, o cinza, as mazelas sociais, a violência. Simplesmente esquece. Ainda que por alguns instantes. Dá pra viajar, naquele ambiente. Vejo uma vitória-régia e fico pensando que uma daquelas folhas, praticamente, aguenta o meu peso em cima dela. Tenho vontade de experimentar, pra ver se me aguenta mesmo. Vejo as mangueiras carregadinhas de frutos e penso: o Brasil é mesmo uma terra abençoada - "em se plantando, tudo dá". E isso tudo encanta você de tal maneira que, quando se dá conta... já é domingo de tarde.

Se você reparar bem, vai perceber que não há ninguém molhando aquelas plantinhas, religiosamente, todas as manhãs, antes de o sol esquentar, nem ao cair da tarde, quando o sol já está fraquinho; também não há, o tempo todo, alguém podando as árvores, vestindo os lírios, perfumando as orquídeas, afinando os pássaros... Aquela “orquestra” depende apenas do Maestro... Sem que precisem se preocupar com a cor de suas pétalas e folhas, tampouco com o frescor de seus ramos, as flores e árvores permanecem belas, belíssimas; sem ensaiar e sem aulas de canto, as aves cantam belissimamente. Pássaros delicados, árvores centenárias, flores de vida curta... todos ali permanecem cheios de formosura, livres de preocupações. Isso nos ensina alguma coisa...
“(...) Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais do que elas? Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida? Quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda sua glória, se vestiu como qualquer deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: que comeremos? Que beberemos? Ou: com que nos vestiremos? Pois os gentios procuram todas estas coisas. De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal.” (Mateus 6: 25-34)
Hoje é domingo. Caminhe pelo verde, medite nas lições da natureza, livre-se da ansiedade. É o começo de uma nova semana!

domingo, 19 de julho de 2015

EU SEI, MAS NÃO DEVIA

EU SEI, MAS NĀO DEVIA
(Por Suzi)

Você, ao menos, já ouviu falar em Marina Colasanti. Mas sabia que Marina nasceu na Etiópia, em Asmara, que morou 11 anos na Itália e só então veio viver no Brasil? Sabia que é casada com Affonso Romano de Sant'Anna, o mineiro, poeta e escritor? Pois é, eu não sabia... Descobri isso há alguns anos.

Com "Eu sei, mas não devia", livro que contém o texto que você vai ler agora, Marina Colasanti ganhou, em 1997, o Prêmio Jabuti. Há diversos fragmentos dessa crônica espalhados pela internet, mas hoje eu gostaria que você gastasse dez minutos do seu domingo de inverno brasileiro pra ler, calma e refletidamente, o texto em sua integralidade - e eu vou fazer o mesmo, de novo -, para que a gente, de uma vez por todas, pare com isso de "se acostumar", pra evitar feridas, pra poupar a vida; vida que aos poucos se gasta e, antes mesmo do final, se perde de si mesma.

Eu sei, mas não devia
(Marina Colasanti in "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco.) 

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

E eu não poderia deixar de acrescentar, aqui, dois trechos de cartas de um grande escritor, chamado Paulo, e que já cantou essa pedra há muitos e muitos anos...:

“Portanto, prestem atenção na sua maneira de viver. Não vivam como os ignorantes, mas como os sábios. Os dias em que vivemos são maus; por isso aproveitem bem todas as oportunidades que vocês têm.” (Efésios 5:15-16 - Bíblia, Nova Tradução na Linguagem de Hoje - NTLH)

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
(Romanos 12:2 Bíblia, versão Almeida Revista e Corrigida - ARC)

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Suzi, convidada para estar com a gente neste domingo, escreve para o Blog da Suzi - ainda que, nos últimos tempos, esteja fazendo isso com menos frequência do que gostaria.
A turma do #entaoserve agradece à Suzi por aceitar o convite.